Crescimento económico de Moçambique não atenua malnutrição

Crescimento económico de Moçambique não atenua malnutrição

Apesar do crescimento económico entre os 7 e os 8% nas duas últimas décadas, metade da população de Moçambique continua a viver abaixo do limiar da pobreza. Assim, as taxas de malnutrição infantil apenas desceram 5%, dos 48 para os 43% de 2003 até este ano.

Ainda assim, e apesar desta descida ténue, a qualidade de vida das crianças e jovens continua igual, de acordo com Carlos Castel-Branco, economista e investigador do Instituto para os Estudos Sociais e Económicos (IESE) de Maputo.

O responsável acredita que, no longo prazo, os melhoramentos sustentáveis em nutrição e níveis de pobreza são difíceis de alcançar sem crescimento económico, eles não resultam, necessariamente, desse mesmo crescimento económico.

Na última década, a produção alimentar per capita em Moçambique não aumentou; inclusive, decresceu ligeiramente, ao passo que os preços dos alimentos subiram. A inflação do preço da comida impacta mais os pobres, uma vez que uma grande percentagem dos seus rendimentos é utilizada para comprar alimentos.

Em Moçambique, e ainda de acordo com Castel-Branco, menos de 1% de todo o investimento privado na última década foi alocado para a produção de alimentos básicos para o mercado interno, contra 85% investido nos minerais, florestas, comodidades primárias para exportação e infra-estruturas. O restante foi distribuído entre os bancos, construção e turismo.

“Isto acontece porque estas são as áreas em que o capital estrangeiro está interessado, é aqui que o capital doméstico vê o seu futuro”, explica o economista. Na verdade, o País foi alvo de duas revoltas populares em três anos, fruto do aumento dos preços dos produtos e serviços básicos.

Maaike Arts, especialista em nutrição da Unicef em Moçambique, explica que o problema não é apenas a malnutrição. “É a saúde, higiene e saneamento básico. A diarreia e os vermes afectam os nutrientes das crianças; a malária reduz os níveis de ferro no sangue. Em Moçambique, muitas mulheres casam e têm filhos na adolescência. Há uma relação significativa entre a idade das mães e o estado nutricional das crianças”, adiantou ao IRIN Africa.

“Podemos gastar milhões a educar as pessoas sobre o que devem comer, sem mudar nada. Há uma falta de entendimento sobre esta questão a nível político, e temos de criar este entendimento”, continuou Arts.

Os níveis de crónica malnutrição são maiores nas áreas rurais, onde os pais passam o dia a trabalhar nos campos, longe de casa, e a maioria das famílias apenas come duas vezes ao dia.

“Temos de dar às crianças uma dieta mais variada. Muitas famílias têm galinhas e cabras, mas apenas comem carne em ocasiões especiais. Porque eles precisam de vender os animais para comprar sabão, açúcar, sal, materiais escolares e outros bens de primeira necessidade”, explicou, por seu lado, Edna Possolo, chefe do departamento de nutrição do Ministério da Saúde de Moçambique.

Por outro lado, a malnutrição crónica custa entre 2 e 3% do PIB moçambicano por ano – ou seja, entre MZN 9 mil milhões e MZN 15 mil milhões (entre €230 milhões e €385 milhões).

A situação poderá estar a mudar. Pela primeira vez, o Governo moçambicano tem um plano para reduzir a malnutrição crónica nas crianças menores de cinco anos em 30% até 2015 – e 20% até 2020.

“Sabemos como tratar os efeitos imediatos da malnutrição e formulámos uma série de boas políticas para lidar com os assuntos estruturais, mas não sabemos realmente como os implementar”, explica Possolo.

A grande dificuldade é implementar uma abordagem multi-sectorial, presente no plano do Governo. A malnutrição é muitas vezes vista como um problema de saúde, e muitos doadores preferem financiar projectos que lidam com os sintomas da malnutrição em vez de uma abordagem estrutural que demoram mais tempo a atingirem resultados tangíveis.

“Preferia um único financiamento, um fundo comum. Seria mais fácil, para nós, darmos prioridade e coordenarmos os efeitos nesta área”, conclui Possolo.

Na sua opinião, que medidas devem ser tomadas pelo Governo moçambicano e ONGs para reduzir a malnutrição crónica, sobretudo nas crianças? Deixe a sua sugestão nos nossos comentários.

Foto: Graeme Williams / UNICEF

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