“Não queremos substituir o sistema, mas chegar até onde ele não existe”

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“Não queremos substituir o sistema, mas chegar até onde ele não existe”

O projecto Ler Mais pretende equipar a biblioteca da comunidade moçambicana de Nhambira, a norte da cidade da Beira, com livros de consulta e material escolar. A Fundação Gonçalo da Silveira (FGS) e a Região Moçambicana da Companhia de Jesus são os mentores desta ideia que conta ainda com o Centro de Investigação de Santo Agostinho (CISA) como apoio à implementação e gestão.

A FGS quer tornar a biblioteca funcional, através de apoios monetários adquiridos através da plataforma Olmo, para proporcionar um local de estudo que beneficie cerca de 2.000 utilizadores que aí encontrem um sítio para consultar livros, efectuar pesquisas, desenvolver trabalhos e expandir conhecimentos. O objectivo do projecto é contribuir para combater o analfabetismo e melhorar o nível de aprendizagem das populações.

Se conseguir recolher os 5635€ que pretende, a FGS, em parceria com os jesuítas em Moçambique e com o apoio do CISA, irá providenciar a lista de compras, que vai desde os afias, aos bancos, ao material de limpeza e claro aos livros. Os recursos humanos locais serão os responsáveis pela continuação do projecto e pela dinamização do espaço – um pedido directo das comunidades.

Em entrevista ao Green Savers, Rita Caetano, responsável pela comunicação e angariação de fundos da FGS, explica que o Ler Mais tem como prioridade possibilitar o acesso a informação e à educação às populações. Leia a entrevista.

Quais são os propósitos sociais da Fundação Gonçalo da Silveira?

A Fundação Gonçalo da Silveira (FGS) é uma organização não-governamental para o desenvolvimento (ONGD), sem fins lucrativos. Acreditamos que um mundo mais justo e humano é possível e por isso todo o nosso trabalho é concretizado tendo em vista um desenvolvimento humano integral e um maior compromisso da sociedade com os valores da igualdade e da justiça social.

Que tipo de projectos desenvolvem e com que motivação os realizam?

Realizamos acções de sensibilização e de formação sobre questões de cidadania e desenvolvimento, sobretudo junto de escolas de norte a sul do país. Internacionalmente, desenvolvemos projectos de cooperação para o desenvolvimento nas áreas da educação, do desenvolvimento rural e do reforço institucional. Trabalhamos lado a lado com as missões jesuítas, com pequenas organizações locais, centros de estudo e empresas. Actualmente, a nossa acção tem sido maior em Moçambique e Timor-Leste.

Designamos o nosso trabalho por “cidadania global e desenvolvimento”, certos da necessidade de se trabalhar paralelamente na acção e na sensibilização numa resposta concertada para os problemas de pobreza extrema. Intervimos num mundo que está estruturalmente desequilibrado e onde prevalecem injustiças inaceitáveis. Valorizamos a prática, a acção assente na reflexão crítica e a resolução de problemas concretos. É nossa prioridade o trabalho em prol dos mais desfavorecidos implicando uma acção colaborativa, multissectorial, cujo fim último seja o bem comum.

Por que razão a escolha de Moçambique para as vossas acções de solidariedade social?

O trabalho da FGS em Moçambique teve início em 2004 e foi o grande mote para a nossa constituição. Há 10 anos atrás os jesuítas em Portugal, ambicionando fazer mais e melhor, sentiram necessidade de formalizar e profissionalizar a sua intervenção em Moçambique, por via das suas várias missões no terreno.

Em virtude da sua presença secular e da proximidade às populações, estas missões são pontos-chave no diagnóstico de necessidades localmente. A FGS surgiu como ponte entre estas necessidades identificadas e a procura institucional de financiamento para fazer face às situações mais prementes e também às menos prementes, numa procura por sustentar e dar sustentabilidade a toda a intervenção.

Porquê a aposta na plataforma de crowdfunding portuguesa Olmo para o financiamento do projecto Ler Mais?

Desde 2009 que a FGS tem vindo a trabalhar com as comunidades rurais de Nhangau, situadas na província de Sofala. Aqui as populações encontram-se no limiar da pobreza, com rendimentos familiares extremamente reduzidos. A FGS e os seus parceiros procuraram contribuir para um aumento do acesso à educação nesta zona, tendo já construído escolas comunitárias, entre elas a de Nhambira. Esta escola integra um espaço projectado para ser biblioteca mas que se encontra ainda vazio, ficando aquém das suas possibilidades de local de estudo e pesquisa.

Acompanhamos a Olmo desde o início, quando era apenas uma ideia por concretizar, e não quisemos deixar de nos associar a esta iniciativa. Não vemos a Olmo apenas como uma plataforma de crowdfunding mas sim como um parceiro. Para além disso, identificamo-nos com a componente de crowdsourcing e com a possibilidade de se ser ainda mais transparente para o doador ao permitir escolher o que doar de entre toda a lista de compras apresentada.

Caso não consigam juntar o dinheiro pretendido através da Olmo, que outros esforços farão para levar o projecto avante?

A Olmo encontra-se neste momento numa fase experimental, de teste, daí que, ao aceitar este desafio, sabíamos estar a jogar contra o factor novidade. Em todo o caso, acreditamos ser possível chegar aos 100% de financiamento. A plataforma é simples de ser utilizada, a educação é uma causa que tem movido montanhas e o montante em causa – 5635€ – torna-se facilmente alcançável se forem muitos a contribuir com pouco.

Se no final de Março não estiver 100% financiado, iremos manter o projecto aberto, procurando empresas e particulares que se queiram associar directamente a esta causa. Mas acreditamos que a clareza e a transparência do nosso pedido podem ajudar a que novos potenciais doadores se sintam tentados a passar das intenções à prática. Somos um povo generoso.

Que garantias poderão dar aos investidores que este projecto dê resultados e não seja abandonado?

Antes de mais há que realçar uma das grandes vantagens da plataforma: caso o projecto não seja financiado a 100% toda a verba e/ou géneros recolhidos serão devolvidos aos doadores. Se conseguirmos o nosso objectivo e estivermos aptos a seguir em frente, existe a confiança de se saber que este é um pedido da própria comunidade daí que esta esteja totalmente envolvida. Está prevista, inclusive, a participação da comunidade na manutenção do espaço e serão os próprios a desenhar o regulamento interno da biblioteca. A presença dos jesuítas na Beira e o apoio do Centro de Investigação de Santo Agostinho (CISA), da Universidade Católica da Beira garantem o acompanhamento local eficaz de todo o processo.

Quantas pessoas estão envolvidas no terreno?

Para além da própria comunidade de Nhambira e, grosso modo, todas as comunidades rurais de Nhangau, onde Nhambira se integra (população estimada de 4.889 pessoas – censo de 2007), estão envolvidas as comunidades de missionários jesuítas da Beira e o Centro de Investigação de Santo Agostinho (CISA), da Universidade Católica da Beira.

Como pretendem alterar os problemas sociais em Moçambique sem alterar o sistema social do país?

Em Moçambique estima-se que aproximadamente metade da população não saiba ler nem escrever, o que constitui um sério entrave ao desenvolvimento, agravado ainda pela baixa qualidade do sistema de ensino.

Nhambira não é excepção. Possibilitar o acesso a informação e à educação tem sido, por isso, uma das prioridades da FGS em parceria com a Região Moçambicana da Companhia de Jesus. Sendo que é também nossa prioridade o trabalho com comunidades mais deslocadas e isoladas, onde a pobreza é maior, temos vindo a incentivar dinâmicas comunitárias também neste sector.

A lógica é trabalhar com as próprias comunidades na identificação, concretização e manutenção quer de infraestruturas, quer de mecanismos complementares como a formação de professores comunitários. A ideia não é a substituição do sistema é a complementaridade no sentido de chegar onde ele ainda não chega.

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1 comment

  1. Janina Amaral

    Olá a todos! Orgulho-me por ver vontade em ajudar. Deixo aqui a minha experiencia como voluntária da Organizacao sem fins Lucrativos sediada na Suica (Montreux)- Just For a Smile, (fundadora e presidente, Denise Simao) na ajuda da criacao de uma biblioteca no Orfanato Sonho Real em Marracuéne Mocambique. O objetivo para o recheio da mesma, desde livros a material de escrita, centrou-se na recolha de livros em Língua Portuguesa, por Portugal, Suica, Mocambique. A adesao foi imensa. As pessoas entregaram bastante material e sentiram-se muito bem ao poder ajudar. Penso ser sempre mais fácil levar a sociedade a doar bens do que a doar dinheiro. Porém, muitos foram os que compraram material novo e doaram.
    Votos de um bom projeto e desde já ofereco-me como voluntária.
    Cumprimentos a todos.

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